segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

O Bloco Laranja


Começava o surto de gripe A em São Tomé.. Eu estava na Urgência do hospital.. os doentes eram às centenas.. No meio das condições precárias, as crianças ficavam numa sala especial, com a sua dificuldade respiratória, a febre, a tosse, sem oxigénio, à espera... Entravamos nestes "cuidados intensivos" e tínhamos 3 berços. No berço do meio morreu uma menina de 3 anos e no dia a seguir um de 4...sem que nada se pudesse fazer... eu assisti mais de perto à segunda morte, incrédula pela passividade da médica e enfermeiro.. Declararam a hora da morte e saíram. Fiquei eu, o menino de 4 anos na minha mão, e, do lado esquerdo, sentado num banco, a ver tudo, um menino de 11 anos. Como uma sombra, estatico, assistiu às duas mortes. Ninguém lhe disse se podia sair do quarto, não tinha nada para se distrair, a mãe estava a trabalhar, ele estava sózinho...a ver tudo...No dia anterior já o tinha visto ali, e dei-lhe um bloco laranja e uma caneta. Naquele momento, ele agarrava o bloco laranja e escrevia, desenhava, espreitava, tentava não olhar, mas via tudo... larguei então a mãozinha fria que segurava, cheguei perto do menino e disse-lhe "tu não tens que ver isto...queres vir comigo?". Ele deu-me a mão e saimos. Passeámos, e ele nada disse. E eu também não. Voltámos à sala onde ele tinha de ficar, e despedi-me dele. Ele nada disse...nunca falou...mas agarrava-se com força ao bloco laranja, e no final...sorriu para mim...

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Tão longe e tão perto

São Tomé... estás tão longe, distante no tempo, no espaço... Parece que foi como um sonho estar aí. Agora avalio e reflicto sobre tudo o que se passou. Agora vejo a importância que esses dias tiveram na minha vida, como me fizeram crescer, como me marcaram profundamente.
Não te largo, São Tomé, porque fazemos já parte um do outro. Só nós dois sabemos o que foi, o que vi, o que ri, o que chorei. As cores, os cheiros, os aromas... a água azul, o verde que cobre a terra. As crianças que correm, que riem, que brincam; que transportam a sua felicidade para a roça onde humildemente vivem.
Agora ajudo a que outros possam viver um pouco da magia de estar aí, de dar mais a quem precisa.
Uma coisa é certa...vamos voltar a encontar-nos querido São Tomé.

domingo, 6 de dezembro de 2009

O regresso...


Cheguei há 1 mês... E neste tempo São tomé ficou tão longe...e tão querido...
A chegada foi estonteante, emocionante...os amigos, a família, todos lá... com os braços abertos, as lágrimas nos olhos e o sorriso de quem ama. Essa foi uma das lições: sentir a amizade; profunda, presente, quente... estar só e não estar.
E agora aqui, nesta terra de luz...nesta terra maravilhosa que me fez falta...
E agora aqui, rodeada de todos, rodeada dos milhares de informações com que somos bombardeados a cada momento, às vezes tento lembrar-me: do calor, do cheiro a terra, do som do mar, dos risos das crianças... São Tomé, tão longe e tão perto.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Adeus São Tomé...

E pronto...chegou o último dia...Passei-o a despedir-me do pessoal do hospital, do posto de saúde, do Instituto Marquês de Valle Flor, dos amigos portugueses... Quando vinha a caminho de casa ao fim do dia, o céu tinha uma cor fantástica, o mar brilhava mais do que nunca, o cheiro a terra, o calor húmido... Vou ter saudades desta terra que passou a ser um pouco minha... Mas amanhã vou estar no meu Portugal, nessa Lisboa tão linda, com a minha família e os meus amigos. Vou para casa!

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Queimando os últimos cartuchos

E os últimos dias estão aí... Como esta semana estou no PMI (Programa Materno-Infantil), vou fazer um trabalho em colaboração com a saúde sexual e reprodutiva. O estudo que vou desenvolver pretende identificar a prevalência de gravidez na adolescência, com a identificação das causas adjacentes. Então ando de distrito em distrito a distribuir questionários que vão ser respondidos por adolescentes de 16 e 17 anos. É bem interessante e motivante. Esta fase é feita aqui, o resto faço em Portugal. Amanhã vou apresentar o tema "Gravidez na Adolescência" para todos os enfermeiros responsáveis por todos os postos de saúde em São Tomé.
Tenho aproveitado para ir a alguns sítios onde ainda não tinha conseguido... Ontem fui a umas Roças perdidas para lá de Santana, Bernardo Faro e Claudino Faro... Impressionante... As mais pobres e mais necessitadas que vi... Foi lá que deixei quase tudo o que trouxe...
Últimos trabalhos, últimos passeios, últimos jantares, últimos "café e companhia", últimos olhares... Não, não últimos...primeiros!

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Janelas


As janelas... Quando se abrem, para a luz, para o mundo, para a vida, buscam tudo, olham, observam, captam...
Por vezes tapadas com cortinas para que se não veja o que está lá dentro. Por vezes abertas de par em par, desvendando os mistérios e os segredos mais profundos.
Dizem o que somos, de onde vimos, o que sonhamos... Espelham o que sentimos, espelham a nossa alma.
Uns olhares profundos, outros vazios, loucos, alegres, apaixonados, tristes, nostálgicos, compreensivos.
As nossas janelas...que se abrem e fecham na esperança de ver um mundo melhor.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Tua presença

Deus está aqui. Se não estivesse não aconteciam tantos milagres diariamente. As crianças que nascem, sobrevivem, andam na rua, descalças na lama, na porcaria.. Mãos no chão, nos animais, no lixo, na boca. Roupas rasgadas, sujas, gastas. Pele manchada, escariada, bolhosa. Olhos lânguidos, profundos, brilhantes. Sabedoria no olhar de uma criança. Gente sem condições, sem cuidado ou protecção. A terra alimenta-os, o mar refresca-os, o céu dá-lhes água, sol, calor. São pobres, não têm luz, água potável, alguns não têm pais, não têm lar. Não têm família, homens e mulheres partilhados, filhos daqui e dali... Não têm nada, mas têm fé. Em cada rosto há um sorriso. Sim, Deus está aqui...