
Começava o surto de gripe A em São Tomé.. Eu estava na Urgência do hospital.. os doentes eram às centenas.. No meio das condições precárias, as crianças ficavam numa sala especial, com a sua dificuldade respiratória, a febre, a tosse, sem oxigénio, à espera... Entravamos nestes "cuidados intensivos" e tínhamos 3 berços. No berço do meio morreu uma menina de 3 anos e no dia a seguir um de 4...sem que nada se pudesse fazer... eu assisti mais de perto à segunda morte, incrédula pela passividade da médica e enfermeiro.. Declararam a hora da morte e saíram. Fiquei eu, o menino de 4 anos na minha mão, e, do lado esquerdo, sentado num banco, a ver tudo, um menino de 11 anos. Como uma sombra, estatico, assistiu às duas mortes. Ninguém lhe disse se podia sair do quarto, não tinha nada para se distrair, a mãe estava a trabalhar, ele estava sózinho...a ver tudo...No dia anterior já o tinha visto ali, e dei-lhe um bloco laranja e uma caneta. Naquele momento, ele agarrava o bloco laranja e escrevia, desenhava, espreitava, tentava não olhar, mas via tudo... larguei então a mãozinha fria que segurava, cheguei perto do menino e disse-lhe "tu não tens que ver isto...queres vir comigo?". Ele deu-me a mão e saimos. Passeámos, e ele nada disse. E eu também não. Voltámos à sala onde ele tinha de ficar, e despedi-me dele. Ele nada disse...nunca falou...mas agarrava-se com força ao bloco laranja, e no final...sorriu para mim...
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