terça-feira, 22 de setembro de 2009

Roça



Foi já há 9 dias que entrei numa Roça pela 1ª vez... e desde então tem-me sido impossível descrever-vos o que senti e o que pensei, porque eu própria tive de me organizar internamente... A primeira imagem...a imponência dos edifícios coloniais, a magnitude, o arrepio que a imaginação nos traz imediatamente... a visão daquilo que me transporta a um passado que não vivi mas que de repente se torna tão presente na minha mente. E ao imaginar tudo isto paro de olhar e vejo verdadeiramente; as casas quase destruidas, sujas, gastas...quintais cheios de roupas rasgadas estendidas ao sol...pessoas aqui e ali a espreitar, sentados, a vaguear... O antigo hospital da Roça Rio do Ouro olha tudo, majestoso...olha tudo de forma triste porque só ele ali sabe o passado, o presente, quem sabe o futuro... o futuro que se avizinha triste porque as suas paredes não poderão resistir muito mais. Arrepiante e emocionante...e, ao chegar ao cimo, uma, duas, dez crianças chegam perto de mim, falam, riem, olham, brincam, tocam... estão sujas, descalças, rasgadas, com feridas, com bolhas, com manchas...na mãozinha de uma delas a cabeça de uma boneca que é o único brinquedo. Não querem nada, só querem estar. E eu também quero estar ali. A voz da adolescente na minha cabeça "Queres ficar na minha casa?". A vontade de dizer que sim, e o abraço de adeus que me levou.

3 comentários:

  1. É nestes momentos que nos apercebemos que a felicidade é uma palavra sem medida... que dar/partilhar é muito mais que encher as pessoas de presentes e bens materiais...
    Aqui levantam-se valores bem mais altos do que os da nossa "moderna" sociedade.
    Disfruta destes momentos únicos do "estar por estar": são os mais preciosos nesta vida! :)

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  2. E nós que perdemos tanto tempo a pensar no carro, na casa, no LCD, no telemóvel, na viagem de sonho ... realidades desconhecidas ... de ambos os lados!

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  3. Eu já estive ai:) Esse hospital foi onde o Walter nasceu:)
    Essas crianças que não queriam nada, apenas queriam estar... comigo era a mesma coisa, apenas queriam dizer "presente", ir para a direita, dps voltar para a esquerda, sempre a olhar para nós, na ânsia de observar qualquer alteração no nosso rosto, um sorriso, uma aprovação, um incentivo...

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